sexta-feira, 10 de maio de 2013
Eficácia do benefício é no mínimo discutível
Tratando-se de jovens, em geral fora do mercado de trabalho (e portanto "duros"), o ingresso reduzido diminuiria a barreira financeira que poderia privá-los do consumo de cultura. Essa lógica bem-intencionada tem sido questionada pelos fatos.
Segundo produtores da área, a presença de estudantes verdadeiros ou falsificados nas bilheterias chegaria em média a 60%, nos cinemas, e alcançaria até 95% em festivais de música pop.
Como o poder público impõe um subsídio mas não o banca, a consequência econômica é a elevação do preço dos ingressos para compensar a perda. Aparentemente, todos pagam mais, embora o não estudante pague ainda mais para financiar a generalização da suposta meia-entrada.
Agora, propõe-se uma cota de 40% para o ingresso com desconto, o que, em tese, permitiria uma redução de até 35% nos valores. Não há nenhuma garantia de que isso vá acontecer.
O instituto da meia-entrada data da década de 1940, quando a população estava na casa dos 50 milhões -- mais ou menos a quantidade de estudantes que existe hoje no país (cerca de 57 milhões). Naquela época, não havia TV, muito menos DVD, internet ou YouTube.
Com o tempo, a meia- entrada passou mais e mais a ser defendida como "conquista política" -agenciada por entidades, como a Une (União Nacional dos Estudantes), que usam a vantagem para angariar apoio e recursos.
É no mínimo discutível a eficácia distributiva do benefício. O termo estudante define uma coletividade, mas encobre a diversidade socioeconômica de seus indivíduos. Tem estudante rico, classe média e pobre, embora todos usufruam o mesmo privilégio.
É também claro que boa parte das atividades a que o estudante tem acesso subsidiado seria melhor definida como lazer ou diversão do que como cultura.
Que diferença faz, afinal, do ponto de vista do enriquecimento da formação estudantil, pagar menos para assistir a um show do Cake ao vivo ou ver de graça um clipe da banda na TV?
Em 06/05/2013, por Marcos Augusto Gonçalves, para o jornal Folha de São Paulo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Locadoras virtuais ou não
Não à toa, nos últimos dias divulguei algumas notícias a respeito da Netflix. Tudo para basear algumas considerações sobre os serviços de locação ou compra de filmes via internet, ou via streaming. Não se trata de uma opinião contrária à Netflix, até porque ela não é a única provedora deste tipo de serviço no Brasil, ou mesmo fora dele. Acontece que se tornaram um modelo, mas um modelo que merece algumas ressalvas.
Primeiramente, acredito que a iniciativa de disponibilizar filmes, séries, ou qualquer tipo de programação via internet, seja uma baita sacada. Todo serviço que facilite ou que permita um acesso melhor ao usuário sempre é válido. Mas esse tipo de opção tem se tornado a única. E é nesse ponto que percebo a disponibilização via streaming como algo negativo.
Aparentemente, o negócio de vídeo locadoras entrou em uma nova queda livre, talvez somente comparada à entrada das grandes redes no mercado e da mudança dos formatos de VHS para DVD. A locadora 2001, acostumada com os clássicos, se viu pressionada a entrar no mundo dos lançamentos, mas nunca perdeu o seu foco nos antigos. Isso fez com que, aparentemente, não sofresse o mesmo golpe que a rede Blockbuster. O problema, é que somos vítimas dos modelos estrangeiros e, quando a Blockbuster entrou em crise nos EUA, justamente pelo novo modelo de concorrência que surgia no meio online, a "filial" brasileira também surtou, e acabou nas mãos das Lojas Americanas, que aproveitou seus pontos e criou várias lojinhas meia boca.
O formato online chegou com tudo. O números de pessoas com acesso à internet é cada vez maior. As pessoas consomem via internet cada vez mais. Nada mais justo do que focar somente neste formato, ou aumentar o investimento. Acontece que lá nos EUA, que dita as regras nesse sentido, os serviços de streaming vêm sendo questionados nos últimos tempos. Quer seja pelo acervo, pelos valores cobrados, pela qualidade do serviço. E a quantidade de assinantes caiu (http://info.abril.com.br/noticias/mercado/netflix-perde-800-mil-assinantes-nos-eua-25102011-18.shl). Não sei se pela mesma razão, mas talvez impulsionados pelos resultados de fora, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) divulgou na edição de abril da sua revista, o resultado de pesquisas relacionadas a estes serviços de vídeo online, e os resultados não foram tão bons.
Existem problemas com questões contratuais, acervo disponível, problemas com a propaganda, mudanças nos pacotes dos assinantes, incompatibilidade com equipamentos,entre outros. O que fez com que usuários trocassem de serviço ou buscassem novas alternativas.
Independente de qualquer problema apontado por essa pesquisa, algumas perguntas me vêm à mente. Será que a nossa internet alcançou uma qualidade tão alta, que permite o uso de uma tecnologia de streaming com a mesma qualidade de um DVD ou até mesmo blu-ray? Obviamente, tudo depende da sua parte do negócio. O que eu quero dizer com isso? Bom, o filme, belo e formoso está a sua disposição porém, se a sua internet não é boa, se a sua TV ou computador não são bons, a culpa por qualquer questão de qualidade será somente sua. E o brasileiro, cá entre nós, se vira bem, mas quando precisa tratar entretenimento, quer ligar a TV e esquecer desses detalhes técnicos. O que eu concordo plenamente.
Também existe toda uma questão de concorrência. O acervo dessas empresas não contém lançamentos, diferentemente, por exemplo, dos pay per view fornecidos pelas TVs a cabo. Será que por uma questão de valores, esse detalhe seja tão superficial? Novamente, as pessoas gostam de lançamentos. Dificilmente um assinante busca clássicos ou filmes muito antigos para assistir com a família. Claro que existe um nicho de colecionadores ou saudosistas para isso, mas não chega a ser uma grande maioria.
Quanto à questão dos valores, tudo é uma questão de percepção. R$15 reais pode não ser muito, se você considerar somente a questão de poder assistir quantos filmes quiser. No entanto, a coisa começa a ficar mais cara se você considerar que precisará de um acesso à internet, um bom computador, ou uma TV de qualidade, que sejam compatíveis às exigências da empresa fornecedora dos filmes, e que toda a manutenção desses equipamentos é por sua conta. Sim, você também é o responsável pela saúde do seu aparelho de DVD, mas qualquer problema é infinitamente inferior em um equipamento que custa R$150 reais, perto de outro que custa mais de R$1.000, como é o caso de um computador.
Reforço minha opinião que, qualquer forma de permitir o acesso da população à cultura e ao entretenimento, sempre será válida. Mas aproveitar o oba oba tecnológico pelo qual o país atravessa, talvez não seja a maneira ideal de fazer isso acontecer (não questiono o bum comercial que existe por trás disso). Também acredito que mais importante do que fornecer qualquer serviço, também seja importante manter outras alternativas, que permitam que eu assista um belo filme caso minha conexão de internet tenha caído.
O avanço tecnológico não pode ser esquecido, mas ele tem que servir como mais uma opção, e não como a única. Imaginar que a ferramenta para assistir vídeos online é a única saída para aquele que busca entretenimento (tanto como consumidor como vendedor), é esquecer o deleite da experiência de entrar em uma video locadora física, e poder pegar na mão um DVD, ler sua sinopse, esbarrar em uma fileira onde existe aquele filme que você sempre quis assistir mas que nunca lembrava o nome, comprar a pipoca, o refrigerante e aquele sorvete, tudo ao mesmo tempo. Chegar em casa, se jogar no sofá, e se deliciar com o filme escolhido. E não entrar em um site tendo que saber exatamente o que se quer ver, ou se perder nas opções, nos cliques de um notebook incômodo (ou algo menor e ainda mais difícil de se visualizar), e esperar o download do filme escolhido, torcendo para que a energia não acabe, ou que sua internet não sofra com as variações de velocidade, sentado em sua não tão confortável cadeira de escritório.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Você ainda compra DVDs?

Recebi ontem um newsletter da CNET, um portal de tecnologia, onde um dos editores lançava exatamente essa questão. Você ainda compra DVDs? O texto sugere que as mídias tradicionais DVDs e Blu-rays caminhem para a extinção, assim como aconteceu com o VHS, principalmente por causa das novas tecnologias que disponibilizam vídeos por streaming, os chamados videos on demand. Isso provocou um emaranhado de pensamentos, que listo a seguir.
Obviamente, não é possível brecar o avanço tecnológico. Novas mídias e novas tecnologias surgirão de tempos em tempos, exigindo uma adaptação do mercado e de seus usuários. Me lembro quando lançaram o primeiro vídeo laser, nos idos anos de 1990. A mídia era linda, um DVD do tamanho de um disco de vinil, dourado, sem inscrições nem identificações. Era caro, difícil de manejar, e o seu conteúdo era muito pequeno. No Brasil, não pegou, e acho que no restante do mundo também. Logo foi substituído pelo DVD.
Mesmo a fase de transição entre VHS e DVD não foi das mais fáceis. Não pela adaptação, uma vez que as pessoas já haviam adquirido o costume (e gostado) de comprar CDs de músicas, e o formato, tamanho e, principalmente, qualidade, facilitaram o processo. Mesmo assim existia a questão de custo. Quando lançado, um filme era muito caro, e as locadoras também passavam por um processo de transição, deixando o custo da renovação do estoque por conta dos novos usuários. O valor da nova tecnologia era o principal empecilho. Hoje encontramos aparelhos de DVD a menos de 100 reais, e mídias por menos de 10 reais, mas no auge do seu lançamento, um player poderia custar mais de 1500 reais, e um filme, muito próximo dos 150 reais.
O mesmo pode ser falado do formato blu-ray. Dessa vez, parece que a tecnologia não empolgou tanto aqui no Brasil. Ainda existe toda a relação de custo, mesmo que os valores já tenham reduzido muito. Um player pode ser achado por até 300 reais, mas é no valor da mídia que o bicho pega. Os filmes são extremamente caros e, apesar de toda a qualidade, extras, e novidades, ainda não fizeram compensar seu valor. O resultado disso também pode ser percebido em seu repertório de lançamentos.
E as novas locadoras virtuais? Assim como as operadoras de TV a cabo que oferecem vídeos que podem ser assistidos com o simples apertar de um botão, sem que você saia do conforto da sua sala. Tudo isso tende a somar. Oferecer possibilidades. Mas no fundo, se o custo não for interessante, é somente mais um serviço disponível, mas sem uso. Como aquele seguro do seu cartão de crédito. Isso quer dizer que é um serviço ruim? Não. Hoje é um serviço de locação em um molde muito mais funcional, e com preços muito mais interessantes que os das locadoras. Em outros países, como os EUA, já colocou em xeque várias vídeo locadoras tradicionais, como a própria Blockbuster.
Mas e aí, sou a favor ou contra esse pensamento de extinção dos DVDs? Eu sou um colecionador. Um caso muito à parte daquilo que pode ser considerado um consumidor normal (sim, eu não me considero normal). Ainda invisto em VHS e, torço para que isso dê certo para que o valor do DVD caia e eu possa aumentar ainda mais a minha coleção. Mas esse é um caso diferente. A minha realidade.
A verdade é que essas mudanças costumam levar algum tempo por aqui. Exigem uma tecnologia de bom nível (acesso à internet com boa velocidade, por exemplo), e não só isso. A qualidade da transmissão está diretamente ligada ao equipamento que você tem em casa. Se é uma boa TV, pode ser que você consiga ver o filme em alta definição. Caso contrário, só será mais uma dor de cabeça.
Ainda assim, existe o custo da operação. A promessa é que você pague apenas 15 reais em muitos dos novos serviços oferecidos. Mas, como na TV a cabo, isso é apenas o pacote básico, com meia dúzia de canais sem muita graça. O aperitivo de um serviço que exigirá muito mais investimento da sua parte. Nos EUA, onde esse tipo de serviço é mais comum, o mercado sofreu uma estagnada nos últimos meses. Face à crise e ao crescente aumento nas tarifas.
Talvez seja uma boa saída frente aos preços exorbitantes cobrados pelas locadoras reais, mas para quem curte ter a mídia nas mãos, assistir quando bem entender, emprestar, deixar a família inteira assistir e repetir incansavelmente o mesmo filme durante o final de semana, pode não ser a solução ideal. Como destaquei, o serviço exige um tipo de tecnologia que não depende apenas da disponibilidade de bons títulos e de um bom equipamento em sua casa. Se o caminho (online) até a sua casa não for o melhor, pode ser que sua sessão de entretenimento não seja tão divertida quanto o prometido.
E quanto à extinção do velho DVD e até do blu-ray, isso é o caminho comum diante do avanço tecnológico. Não sei se será exatamente agora, mas isso com certeza acontecerá um dia. Desde que o mercado ofereça opções funcionais para essa provável substituição.
quinta-feira, 3 de março de 2011
As influências do Oscar
O que acontece, é que as pessoas justificam a audiência de um filme ao fato de ele ter ganho o prêmio. Todos estão assistindo... por que? Porque ganhou o Oscar. Mas afinal de contas, o filme realmente é bom?
Por fim, é criado um culto ao filme do caneco, mas os bons filmes, de fato, muitas vezes não são comentados e acabam esquecidos no limbo da sombra do Oscar. Para o evento, sobra o espetáculo cheio de pessoas lindas e exuberantes, com discursos prontos, piadas desajeitadas, e em muitas das vezes, um exagerado sentimentalismo, sem contar a cara de surpresa daqueles que nem imaginavam que poderiam ganhar o prêmio. Será?
Em tempo... vale o destaque (não necessariamente positivo) para a dupla responsável pelos comentários, Rubens Ewald Filho e Chris Nicklas e a tradutora oficial na versão brasileira (me perdoe, mas não consegui encontrar o nome dela). Será que não é hora de uma reciclagem? Ou quem sabe dar uma mudada? Não sei quanto a vocês, mas na minha opinião, a já cansativa premiação do Oscar fica ainda mais chata com esse trio. Mesmo sendo grande fã do trabalho de Rubens, acho que ele poderia ser mais solto e fugir um pouco do roteiro quadrado do evento.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Meus dois centavos sobre o assunto
Essa questão de pirataria é mais complexa do que fazem parecer. Mais do que "patrocinar" o crime, ou prejudicar autores e direitos autorais, a discussão deveria ser muito mais abrangente do que tentam fazer. Não que esses argumentos não sejam suficientes, até acho que são, mas não representam toda a verdade.A questão aqui, como podem imaginar, é lucro. Simples e direto, assim. Não há vínculos com criação, direitos, crime, ou qualquer outra bobagem que queiram empurrar guela abaixo. Fazem propaganda nos trailers iniciais do cinema, dos DVDs que compramos, alugamos e, ironicamente, até nas cópias piratas. A ameaça impera sobre a razão.
A lógica, em muitos países, é a da liberdade de uso. Eles copiam ilegalmente pois acreditam que deveria haver algo que permitisse essa liberdade. Claro que existem leis internacionais muito mais sérias, e duras, que mostram o contrário. E a pirataria na Europa, e América do Norte, arrisco dizer, é mais um ato de rebeldia do que um fenômeno social.
No restante do globo, a questão é puramente (fria e calculadamente) financeira. Traga esse pensamento à nossa realidade. Não estou questionando o trabalho de produtores, diretores, atores, e toda uma equipe envolvida na produção de um filme, sua distribuição, e demais fases para fazer um DVD chegar às mãos de seu usuário final.
O ponto aqui é o custo que isso gera a esse usuário final. Um DVD nos EUA sai por até 10 dólares (sem contar as edições especiais, edições de colecionadores, edições de diretores, e mais algumas). Num cálculo grosseiro, isso significaria que um DVD por lá alcança os patamares de 17 reais. Aqui, um DVD lançamento, sai por algo entre R$39,90 e R$49,90. Em alguns casos, o triplo do valor cobrado por lá. Ah, mas você está se achando esperto por comprar o DVD alguns meses após seu lançamento por R$10,00. Ok. Mas lembre-se que alguns filmes nunca chegam a esse patamar de preço por aqui, independente do tempo de lançamento e que, assim como ele desvaloriza por aqui, desvaloriza em todos os cantos do planeta também.
Se isso não fosse suficiente, uma entrada para o cinema custa entre 15 e 25 reais (dependendo do cine de sua preferência). Custo que aumenta ainda mais se você levar um acompanhante, e se decidirem comer uma pipoquinha.
Um aparelho de DVD (daqueles bons, simpáticos, e baratos) custa menos de 150 reais. Então, por que é que eu vou gastar em 3 filmes, ou 3 idas ao cinema, o valor de um equipamento que está lá na minha sala, pronto para dar todo o entretenimento que eu sempre quis na minha vida, desde que eu me descabelava frente à TV com a Sessão da Tarde?
A pessoa vai querer comprar o filme de 2 ou 3 reais que está no ponto de ônibus, na saída do seu serviço. E nem vai ficar com a consciência pesada por isso. Além do mais, e se o filme não for grande coisa? Alugar? E por que não? Mas com preços entre 7 e 10 reais no aluguel de cada filme, volto a dar preferência aos amigos que distribuem versões genéricas.
Não é qualidade. Não é quantidade. Não é enganação. Não é bancar o esperto. As pessoas querem divertir-se, e pagar pouco por isso. E eu concordo com isso. Se em outros países isso pode acontecer, por que não por aqui?
O custo do entretenimento no Brasil é muito alto. A ida ao cinema é cara, e engloba toda uma série de fatores, como transporte, alimento, escolha da sala, escolha do horário, que acaba desgastando até o mais animado dos espectadores.
O DVD original é ótimo. Vem com extras (alguns piratas também), tem uma caixinha bonitinha, tem até uma impressão no próprio disco (alguns piratas também), a qualidade é muito melhor, isso não há o que questionar, e provavelmente não dará problemas a você ou ao seu equipamento. Mas isso tudo não justifica o custo final.
São numerosos impostos, mesmo que comissões especiais tenham votado a isenção deles desde 2009. E mesmo assim, as pessoas consomem. No cinema, a mesma coisa (sem a isenção), e hoje o cinema é um artigo de luxo. O mercado percebeu isso e investiu pesado. Cada vez mais chegam ao mercado filmes novos e diferentes, pra todos os gostos, e quem não assistir, acaba excluído na roda de conversa com os amigos. O gasto de uma ida ao cinema, ao menos uma vez por semana, não é para qualquer bolso.
As opções? Você reduz os preços e vende mais, minimizando a pirataria, ou mantém os altos valores e continua incentivando o crime. Variações de embalagens (mais econômicas). Mídias fabricadas a partir de material reciclado. Promoções por quantidades diferenciadas (boxes, combos, ou o nome que preferir). Os filmes acabam lotando as lojas, mas os preços não diminuem, e o espectador recorre a outros mercados.
Novas tecnologias? Ótimo! Temos o Blu-ray, que nem surgiu como um vilão no combate à pirataria, mas imaginava-se que seria mais difícil a sua cópia. O custo de um filme? Mais de 200 reais. Hoje, quase dois anos após seu lançamento, já é possível encontrar variações entre 29 e 79 reais. Melhor qualidade de som e imagem, mais extras, opções de jogos, mas tudo isso interferindo no preço final. O consumidor assustou e, percebo, a tecnologia não pegou como deveria (e já cogitam novas linguagens, o que não justificaria a aquisição de um blu-ray nesse momento).
Outras tecnologias serão criadas. Muitas. E ao mesmo tempo em que são criadas, milhares de pessoas trabalham em soluções para desbloqueá-las. Novamente, pela sensação de liberdade, ou pela fácil comercialização e aceitação do público. E o custo disso tudo fica para o usuário que tenta ser correto e adquire DVDs ou outras mídias originais. Agora a pessoa terá que cadastrar os aparelhos onde executará tal disco. Se o equipamento der problema... pepino para o consumidor. Ou a mídia virá com a programação de quantas vezes poderá ser executada. Após isso deixa de funcionar. Para o colecionador, não acaba sendo uma boa saída.
Por isso, insisto, por que não reduzir de vez os preços das mídias originais e observar como o mercado se comporta? Tenho certeza que a surpresa será muito agradável, e o consumidor não terá que se preocupar com novas tecnologias por um bom tempo (assim como seus custos e exigências de conhecimento), e os produtores terão sua polpuda fatia dos lucros.
As pessoas não são tão intolerantes. Entre pagar 5 reais numa falsificação e 10 num original, ou mesmo num ingresso de cinema, as pessoas optariam pelos 10 reais. Mas enquanto ninguém sério percebe isso, vamos acompanhando o show de ameaças e novas tentativas surgirem a cada ano, e o tempo que se leva até alguém descobrir como burlar as novas geringonças.
Em tempo... não sou a favor da pirataria e, confesso, nem sou contra. Acho que independente de haver cópias ilegais, os produtores (e todos os envolvidos) continuam tendo seu lucro, bastante razoável, havendo oportunidade também para esse mercado paralelo, voltado às camadas mais populares. Já me dei mal com falsificações, mas já vi gravações perfeitas antes mesmo de o filme ser lançado nos cinemas. Escolher entre o original e a falsificação depende de vários elementos (independente de isso ser considerado crime). É um assunto complexo, com opiniões distintas e, em alguns casos, radicais. No fundo, acredito que se houvesse um ajuste nos valores, todos os lados sairiam felizes e satisfeitos.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Hollywood prepara o enterro definitivo do DVD
Fox, Paramount, Sony, Universal e Warner lideram um consórcio de empresas tecnológicas e audiovisuais denominado Digital Entertainment Content Ecosystem (DECE), nascido para discutir a transição do setor do entretenimento do universo rígido dos suportes físicos à flexibilidade do mundo digital.
A resposta de Hollywood ao desafio de internet se chamará UltraViolet e nascerá em meados deste ano, primeiro nos Estados Unidos e depois no Reino Unido e no Canadá, sem que se saiba ainda quando estará disponível em outros países.
Mais que filmes ou programas de televisão em si mesmos, esta plataforma venderá ao usuário uma série de licenças que lhe darão direito de ver os conteúdos que adquirir, que estarão hospedados na nuvem e serão acessíveis a partir de dispositivos conectados à internet.
O comprador poderá também descarregar os filmes, armazená-los no suporte que desejar e fazer cópias sem custo adicional, apesar de o UltraViolet só autorizar um máximo de 12 dispositivos para os clientes, ou seja, o usuário unicamente poderá desfrutar de sua videoteca nos aparelhos que informar ao sistema.
Uma medida que limita a liberdade de desfrutar dos conteúdos e com a qual se pretende dificultar a pirataria. Todo o software associado ao UltraViolet trará incorporado um sistema de proteção para impedir seu uso ilegítimo.
A princípio está previsto que o UltraViolet permita que até seis pessoas associem suas contas de cliente e compartilhem conteúdos de forma legal.
O consórcio Dece, integrado também por multinacionais como Microsoft, IBM, Nokia, Intel, Motorola e Samsung, anunciou a chegada do UltraViolet no marco da maior feira internacional da eletrônica, a Consumer Electronics Show (CES), realizada este mês em Las Vegas, em Nevada.
A ideia dessas companhias é criar um formato padrão para a distribuição digital de conteúdos, como aconteceu então com a fita de VHS, o DVD ou mais recentemente com o blu-ray, embora nem todos os grandes nomes do setor apeoiem a iniciativa.
Os estúdios Disney e a Apple, cujo diretor-executivo Steve Jobs é um importante acionista da empresa do Mickey, decidiram adotar suas próprias estratégias.
A Disney tem um projeto chamado Keychest com características parecidas ao UltraViolet.
A indústria do cinema se viu forçada a tomar estas medidas após negar durante um tempo a assumir uma mudança de tendência no consumo de cinema em casa, com a esperança de que a queda das vendas do lucrativo negócio do DVD fosse um episódio passageiro, ou se conseguisse pôr fim à pirataria pela internet.
A realidade é que a comercialização de DVD continuou caindo durante 2010, com baixa de vendas de 16% nos EUA em relação ao ano anterior.
Esta trajetória decadente, que em 2009 foi inclusive mais pronunciada com queda de 17%, começou em meados da década passada e já parece irreversível, apesar de que em termos absolutos o DVD continue arrecadando mais de US$ 8 bilhões ao ano.
A venda de filmes na internet é outra vertente.
Embora os catálogos de filmes on-line ainda seja reduzido, o negócio cresceu 17% em 2010 nos EUA até superar os US$ 680 milhões, enquanto a receita da televisão a cabo pelo aluguel de filmes subiu 21%, para US$ 1,8 bilhão.
O UltraViolet é o primeiro grande passo de Hollywood para enterrar o DVD, algo que no entanto não teria que representar o final dos suportes físicos.
Segundo dados do Digital Entertainment Group, a receita com a venda de Blu-ray, formato de maior qualidade e preço que o DVD, aumentaram em 2010 53% nos EUA, para US% 2,3 bilhões, um sintoma claro de que os espectadores continuam gostando de comprar cinema enlatado.
Por Fernando Mexía, em 10/01/2011, para a Folha.com.
