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terça-feira, 20 de março de 2012

O Planeta dos Macacos: A Origem



Se você me falar da série clássica, dos anos 1960, ou do longa de 1968, provavelmente responderei que era uma daquelas séries e filme que marcou época, mas que no fundo não passava de um bando de gente com máscaras de macacos, tentando fingir que aquilo poderia ser algo natural (obviamente, dentro de um campo de ficção). A história nunca caiu no limbo do esquecimento, e teve uma retomada com a versão de Tim Burton, em 2001. O filme era muito mais forte, com mais ação, mais violência, mais atual. A nova versão é ainda mais surpreendente. Pega ainda mais forte na ação, e tenta criar uma ligação com o seu antecessor.

Primeiramente, é importante deixar claro que o filme é um show de efeitos especiais. Todo o trabalho gráfico é de primeiríssima qualidade. Tudo é muito real, sem exageros nos absurdos só por se tratarem de personagens virtuais (em alguns casos). Somada a isso, a seleção musical fecha com estilo a produção. O elenco, encabeçado por James Franco, não decepciona. Funciona bem e agrada com personagens que dão valor à trama.

A história é bastante agradável e não deixa a desejar. Não existem detalhes ou momentos cansativos. A ação acontece desde o começo e vai até os caracteres. Difícil dormir. Alguns momentos podem até ser mais previsíveis, mas nem por isso diminui a qualidade final da produção. Boas cenas de luta, invasão, e dominação. O destaque principal talvez seja pelo fato de o filme buscar dar uma explicação ao longa de Tim Burton, um tipo de continuação às avessas.

O filme conta que no mundo contemporâneo, o jovem cientista Will Rodman (James Franco) está a frente de um grupo de pesquisadores que desenvolvem experimentos genéticos em macacos. Uma de suas experiências é o símio César (Andy Serkis) que com sua super inteligência vai liderar uma rebelião contra os humanos.

Uma ótima produção, com boas doses de ação. Um roteiro inteligente e que chama a atenção do espectador. O elenco é esforçado e não decepciona, mas o grande vai para a parte gráfica da produção. Excelentes efeitos especiais e personagens criados por meio da computação gráfica que parecem reais. Ótimas cenas de luta e o tom de suspense ditam o andamento do filme. Uma excelente pedida, pra quem busca um filme que cumpre bem o que promete. Entretenimento garantido. Ótimo pra qualquer sessão de vídeo.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Rupert Wyatt
Elenco: James Franco , Tom Felton, Freida Pinto, Andy Serkis, Brian Cox, John Lithgow, Tyler Labine, David Hewlett, Sonja Bennett , Jamie Harris, Leah Gibson, David Oyelowo.
Produção: Peter Chernin, Dylan Clark, Rick Jaffa, Amanda Silver
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, baseado no romance de Pierre Boulle
Fotografia: Andrew Lesnie
Trilha Sonora: Patrick Doyle
Duração: 106 min.
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Ficção Científica
Cor: Colorido
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Twentieth Century-Fox Film Corporation / Chernin Entertainment / Dune Entertainment
Classificação: 12 anos

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O estranho mundo de Jack



O estranho mundo de Jack poderia ser um filme de halloween ou, na verdade, é... mas é que em sua história surge um Papai Noel meio dark, e a intenção do protagonista de sequestra-lo, que a coisa se mistura um pouco e, enfim, o filme passa a ser pedida certa nessa época de festas.

O filme tem todo aquele jeitão de Tim Burton. Uma aparência mais escura, personagens mais bizarros, mas tudo muito bem caracterizado. Uma produção de primeira linha. Com um estilo de animação muito interessante, que utiliza bonecos animados (stop motion).

Mais uma vez, a história explora uma mensagem que se encaixa perfeitamente no clima de Natal. Mas independente disso, o roteiro é super elaborado, com excelentes tiradas e, apesar do jeitão meio escuro e assustador (algumas passagens têm mesmo toda a característica de halloween), é um filme muito acima da média, que garante a diversão de toda a família.

No filme, Jack Skellington é o rei das abóboras em Halloweentown, uma cidade onde todos os moradores têm a função de assustar os humanos durante a festa do dia das bruxas. Jack é bom nisso, mas não vê mais graça em seu trabalho. Um dia ele entra em uma floresta onde todas as árvores são portas para reinos que servem a alguma festividade dos humanos, assim entra no reino do Natal. Jack fica espantado com tanta bondade e arma um plano: raptar o Papai Noel e fazer um Natal diferente, a seu gosto. Mas na cidade de Halloweentown há quem se oponha ao plano, dificultando as coisas.

Uma história surpreendente, em um filme com estilo de animação inovador e chamativo, uma mensagem de valor, personagens bem caracterizados, uma direção que sabe valorizar os pontos certos, e um resultado surpreendente. Um filme que deve ser assistido por toda a família, e fazer parte da coleção de todos os cinéfilos. Sem dúvida, um filme que merece estar na seleção de filmes de Natal de todos.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Henry Selick
Elenco: Vozes na versão original: Danny Elfman, Chris Sarandon, Catherine O'Hara, William Hickey, Glenn Shadix.
Produção: Tim Burton, Denise Di Novi, Bill Gavin , Tim Robinson
Roteiro: Tim Burton, Michael Mc Dowell , Caroline Thompson
Fotografia: Pete Kozachik
Trilha Sonora: Danny Elfman
Duração: 75 min.
Ano: 1993
País: EUA
Gênero: Animação
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida
Classificação: Livre

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

9 - A Salvação



Mais uma prova de que as animações estão com tudo, principalmente nos últimos tempos. 9 - A Salvação pode até causar uma sensação de ser uma história previsível, mas independente disso, a mensagem de fundo é válida, e somada aos vários atributos positivos do longa, tem tudo para agradar seu espectador.

Aqui vale um destaque para a associação entre Shane Acker e Tim Burton. O primeiro, por dar vida à animação de 9, após vencer diversos prêmios com um curta de mesmo nome, decidiu estender o filme e, associado à Tim Burton, conseguiu dar uma impressão ainda melhor à sua história pós-apocalíptica.

Fantásticos são os detalhes da animação, o colorido, e a movimentação dos personagens. Os profissionais envolvidos parecem ter conseguido um avanço bastante significativo na produção, o que deixa o filme digno de ser comparado ao de outras grandes e já experientes produtoras.

Os personagens têm o carisma necessário para agradar o espectador, e a história, como dito anteriormente, pode até parecer repetitiva, mas consegue segurar a atenção mesmo quando o filme usa elementos desconfortáveis, como o silêncio total durante vários minutos. O resultado é surpreendente, e o filme supera qualquer ponto negativo com um conjunto muito balanceado.

O filme conta que quando o boneco 9 ganha vida, ele encontra-se em um mundo pós-apocalíptico, no qual os humanos foram dizimados. Por acaso, encontra uma pequena comunidade de outros como ele, que estão escondidos das terríveis máquinas que vagam pela Terra, com a intenção de exterminá-los. Apesar de ser o novato do grupo, 9 convence os demais que ficar escondido não os levará a nada. Eles devem tomar a ofensiva se quiserem sobreviver e, antes disso, precisam descobrir por que as máquinas querem destruí-los.

Uma belíssima produção, com elementos agradáveis e uma história bastante inteligente. Pode parecer estranha pelo tom meio sombrio, comum em todas as produções de Tim Burton, mas acredito que com isso o filme consiga alcançar um novo patamar, e ser ainda mais delicioso. Imperdível para quem gosta de uma trama inteligente, e uma animação repleta de pontos positivos. Um filme para ser assistido e repetido.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Shane Acker
Elenco: Vozes originais: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Elijah Wood, Crispin Glover, Christopher Plummer, Martin Landau
Produção: Tim Burton, Timur Bekmambetov, Dana Ginsburg, Jinko Gotoh, Jim Lemley
Roteiro: Shane Acker, Pamela Pettler
Trilha Sonora: Deborah Lurie
Duração: 79 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Animação
Cor: Colorido
Distribuidora: PlayArte
Estúdio: Focus Features / Starz Animation
Classificação: 10 anos

terça-feira, 26 de abril de 2011

Alice no País das Maravilhas





Demorei algum tempo para criar coragem e assistir esse filme. Não pela produção em si, mas pela história de Alice que, confesso, nunca me chamou a atenção. Não me sentia confortável com toda aquela nova perspectiva de mundo que seu criador, o autor Lewis Carroll, me empurrava com seus personagens desajeitados (aquele coelho do relógio sempre me irritou) e sem relação. Mesmo agora, entendendo a coisa toda, continuo não gostando, mas o filme de Tim Burton me deixou surpreso.


Outro dia falei dos filmes com o DNA de Clint Eastwood, e acho que o mesmo se aplica a Tim Burton. Seus filmes contêm seu jeito, sua fotografia e paleta de cores especial, que permite o destaque e o reconhecimento de que existe ali algo especial.


É isso mesmo o que é aplicado em Alice no País das Maravilhas. O filme tem a cara das produções de Tim, e representa exatamente tudo aquilo que é Alice. Uma história com personagens amalucados, situações sem muita explicação, e um tom sombrio que agrada bastante (mesmo para quem não é muito fã da história original).


Nada de diálogos exageradamente rebuscados, Johnny Depp na melhor versão do Chapeleiro Maluco, Helena Bonham Carter muito bem no papel da Rainha Vermelha e até a novata Mia Wasikowska, atuando como uma Alice nem tão inocente assim, garantem um bom resultado final.


Um filme cheio de efeitos e personagens distorcidos, que encaram de boa suas diferenças, e fogem dos modismos da história original sem perder a referência.


No filme, Alice (Mia Wasikowska), aos 19 anos de idade, volta ao País das Maravilhas, fugindo de um casamento arranjado. No mundo mágico, ela reencontra os personagens estranhos, como o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), a Rainha Branca (Anne Hathaway) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), inspirados na obra de Lewis Carroll. É nessa jornada fantástica que a jovem tentará encontrar seu verdadeiro destino e acabar com o reino de terror da Rainha Vermelha.


Um filme diferente, no final das contas. Uma versão mais dark do conto infantil, e com isso, uma leitura muito mais agradável deste clássico. O filme é bastante rápido, partindo logo para as soluções, sem detalhes longos e cansativos. Uma boa pedida para quem procura um filme alternativo. Para minha surpresa, muito agradável.


FICHA TÉCNICA
Diretor: Tim Burton
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Michael Sheen, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Matt Lucas, Alan Rickman, Christopher Lee, Crispin Glover, Stephen Fry
Produção: Richard Zanuck, Joe Roth, Jennifer e Suzanne Todd
Roteiro: Linda Woolverton
Fotografia: Dariusz Wolski
Duração: 109 min.
Ano: 2010
País: EUA
Gênero: Fantasia
Cor: Colorido
Distribuidora: Disney
Classificação: 10 anos

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vez do cinema 3D

O cinema vive a febre dos filmes 3D. Antes eram apenas as animações. Algumas. Hoje, as sessões tridimensionais de determinada película ultrapassam as da chamada exibição convencional. Mas o que isso pode ter de positivo na sétima arte?

Todo avanço tecnológico é positivo. Mais ainda. Toda intenção de aumentar o poder de interação do telespectador soa como algo fora do comum, algo extraordinário. Não que não o seja. Mas as conversas das filas dos cinemas pode ser um pouco diferente.

Muito já se falou em relação a problemas com a visualização desses tipos de filmes. Imagens distorcidas, óculos inapropriados, redução na qualidade da imagem e, em alguns casos mais exagerados, até problemas com a saúde das pessoas que assistiam a esses filmes.

Um grupo de 6 pessoas que estavam atrás de mim na fila para assistir à sessão do Homem de Ferro 2 discutiam o assunto. Uma das garotas que assistiu Avatar, dizia que não enxergava nada com os óculos, mas que "achava" que o filme tinha sido bom. Outro disparava que as imagens ficavam "embaralhadas", mas que se guiava pelos comentários de outros amigos. Outro, ainda mais radical, disse que sempre ficava com dores de cabeça nessas sessões, mas como todos assistiam, ele se sentia na obrigação de assistir também.

Opiniões como essas não faltarão. E nem é o caso de diminuir a qualidade desse tipo de exibição. Fato é que novas tecnologias surgem a todo momento. Algumas muito boas, outras nem tanto. E esse caso coloca à prova algo maior, que é a exibição de filmes (ou o que quer que seja) na sala de nossas casas, já que as TVs agora já possuem o recurso 3D (alguns modelos lançados recentemente), portanto, essa "modinha" tem tudo para invadir nossos lares.

O próprio diretor Tim Burton, em post divulgado neste blog dias atrás, explicava que este é momento de os diretores brincarem com essa nova possibilidade. E, no meu ponto de vista, ganhar muito dinheiro com isso. Mas na verdade isso tudo não passa de uma brincadeira. Os custos das produção são maiores e, quando os telespectadores perceberem que o valor do ingresso não vale o produto oferecido, acredito que também haverá uma nova avaliação desta tecnologia.

Particularmente, acredito que existam outros problemas a serem resolvidos, (guardadas as devidas proporções) como a economia das legendas na cor branca das versões brasileiras que dificultam a visualização em vários momentos. A imundicie das salas de cinema. E até o controle do limite de idade para determinadas apresentações. Mas isso talvez seja tópico para um novo post. E você, o que pensa a respeito desse assunto?

P.S.: Antes que perguntem, arrisquei assistir algumas sessões 3D, mas a coisa toda não me impressionou como acontece em comerciais. Além disso, em alguns casos, a labirintite foi mais latente que a história da telona.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O 3D não vai salvar o cinema, é só uma ferramenta para brincar


Enquanto lota salas de cinema no mundo todo com sua versão 3D de “Alice no País das Maravilhas”, o americano Tim Burton terá com seu júri pelos próximos dez dias a tarefa de dar a Palma de Ouro a um filme da competição de Cannes. São filmes de autor que normalmente não conseguem nem um centésimo do público que ele conseguiu com seu último blockbuster.

“Um festival de cinema pra mim já é algo como um filme de fantasia. Não há preconceitos, vamos sentir os filmes e discuti-los racional e emocionalmente. Não estamos procurando por nada específico neles. Em vez de julgar, vamos vê-los com generosidade. Não queremos ser nove artistas com raiva (nine angry artists)”, declarou, fazendo uma brincadeira com o filme “Twelve Angry Men” (Doze Homens e uma Sentença, 1957), de Sidney Lumet.
Entre os oito artistas que lhe ajudarão na tarefa, está Benicio Del Toro, vencedor da Palma de ator em Cannes em 2008 por encarnar o guerrilheiro Che Guevara no épico “Che”. Há ainda duas atrizes: a inglesa Kate Beckingsale, a mocinha de “Pearl Harbor”; e a italiana Giovanna Mezzogiorno, que já trabalhou com Wim Wenders (“Palermo Shooting”) e Marco Bellochio (“Vincere”).

Outros três começaram a carreira como escritores e críticos de cinema: o cineasta espanhol Victor Erice, diretor do aclamado “O Espírito da Colmeia” (1973); o francês Emmanuel Carrère, autor do romance “O Adversário”, origem do filme estrelado por Daniel Auteuil; e o italiano Alberto Barbera, diretor do Museu do Cinema de Turim. Completam o time o cineasta Shekar Kapur, indiano radicado na Inglaterra, conhecido pelos filmes “Elizabeth” e “Elizabeth – A Era de Ouro”; e o compositor francês Alexandre Desplat, autor de 120 trilhas sonoras pra cinema, entre elas as de “Julie && Julia”, “Lua Nova” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”.

Perguntado por UOL Cinema se acha que algum dia Cannes poderá ter um filme em 3D competindo pela Palma de Ouro, Burton minimizou a importância da nova tecnologia: “Quando surgiu a animação por computador, todo mundo achava que a animação manual ia acabar, mas não acabou. Não acredito nessa história de que o 3D vai salvar o cinema, o mundo ou mesmo a economia. É só mais uma ferramenta com a qual nós diretores podemos brincar”.

Ao final, foi do espanhol Victor Erice a frase mais bonita sobre o trabalho do júri: “Toda seleção de filmes é um espelho de duas faces. Uma representa o presente, a outra é uma amostra do que o cinema pode ser no futuro. Essa segunda face é certamente a mais apaixonante”.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tim Burton, o deslocado

Kristian Dowling/Associated Press

Por Fernanda Mena
Enviada especial a Londres (para Ilustrada no Cinema - http://ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br/)

Tim Burton acha que estranho mesmo é o mundo fora das telas. “Tudo está cada vez mais estranho, e não mais normal”, disse Burton, 51, à Folha em Londres, às vésperas do lançamento de seu novo filme, “Alice no País das Maravilhas”.
Inspirado na obra homônima de Lewis Carroll, um dos clássicos da literatura mundial, Burton criou uma versão da história em 3D repleta de distorções bizarras, figurinos sofisticados, cenários e personagens fantásticos. “Seus personagens foram tão explorados na cultura pop que encarei a obra como aberta a interpretações.”

O filme custou à Disney cerca de US$ 240 milhões (ou R$ 420 milhões). Estreou nos cinemas dos EUA e da Europa na última sexta-feira, e chega ao Brasil dia 23 de abril. “Alice” bateu o recorde histórico de bilheteria de estreia em final de semana para um filme que não é continuação, arrecadando cerca de US$ 210 milhões pelo mundo.

Em uma mesa-redonda com o diretor, da qual a Folha participou, Burton falou durante 15 minutos sobre o projeto “Alice”. Ao entrar na sala, agitado, sentou-se à mesa e disparou: “De quem é essa colher aqui?”, perguntou, segurando uma colher de chá deixada sobre a mesa por sua mulher, Helena Bonham Carter, que acabara de deixar a sala de entrevistas. Carter cercou-se de uma garrafa de água, uma xícara de chá e outra de café para conversar com os jornalistas. “Alguém precisava inventar uma bebida que misturasse chá, água e café. Só assim Helena não deixaria esse tipo de vestígio por aí”, brincou ele.

Passado o entreato, teve início a entrevista. Gesticulando sem parar, com seus cabelos para cima e olhos arregalados sob os óculos de lentes azuis, o diretor discorreu sobre o fascínio pelos personagens de Carroll.

PERGUNTA - O que lhe interessou na obra de Lewis Carroll?
TIM BURTON - Não foi tanto a história que me interessou, mas seus personagens. Para falar a verdade, não me lembro de ter lido “Alice no País das Maravilhas” na infância. Mesmo assim, eu conhecia os seus personagens por meio de músicas, imagens e ilustrações. Eles estão tão arraigados na nossa cultura, são tão poderosos como imagens, que não precisei ler Carroll para saber que aquilo era fascinante.

PERGUNTA - Por que personagens têm tanto impacto até hoje?
BURTON - Aí é que está a beleza desta obra. Por mais que tenham sido feitas mil análises sobre “Alice no País das Maravilhas”, a história permanece um enigma e seu poder se mantém ao longo dos anos. Entrar em contato com essa história é como quebrar o “Código Da Vinci”. Eu amo isso! Carroll fez algo que você não consegue penetrar realmente, que não fala ao raciocínio lógico, mas que dialoga com algo profundo em todos nós, algo subconsciente. Para mim, esse é o tipo de criação mais puro e fascinante que existe.

PERGUNTA - A fronteira entre sonho e realidade, muito forte em “Alice”, é o território preferencial de seus filmes. Por quê?
BURTON - Porque o mundo está ficando mais estranho, e não mais normal. No entanto, as pessoas continuam se esforçando em separar realidade de fantasia, quando essa divisão está cada vez mais embaralhada por conta da internet, da televisão etc. Para mim, fantasia sempre foi uma forma de explorar a realidade. Essa é a razão por que gostei tanto de fazer “Alice”. Nela, a vida interior, os sonhos e as imagens bizarras que uma imaginação pode produzir são, no fim das contas, reais e se transformam em ferramentas importantes para lidar com questões concretas.

PERGUNTA - Houve algum tipo de limitação nas mudanças feitas no enredo original de Carroll?
BURTON - Existem mais de 20 versões de Alice que, a meu ver, sofrem do mesmo problema: tentam ser muito literais. É por isso que nunca me conectei com nenhuma delas. Aquilo de que gostei do roteiro de Linda [Woolverton, roteirista] foi o fato de ela ter pego o universo de Alice e o ter colocado num contexto um pouquinho diferente, criando uma Alice mais velha, com 19 anos. O meu objetivo foi tentar da melhor maneira possível ser verdadeiro com o legado e o espírito dos personagens de Carroll, e não com a história em si. Segui meus instintos e minhas emoções sem medo. E, para mim, essa é a mensagem de “Alice”: continuar a ver as coisas de formas novas, diferentes e estranhas, algo saudável e artístico ao mesmo tempo.

PERGUNTA - Seus filmes sempre trazem personagens deslocados, que parecem não se encaixar no contexto em que vivem. Alice também é uma deslocada?
BURTON - Certamente! Ela não se encaixa no mundo nem na idade que tem. Está naquela fase esquisita em que não se sente confortável na própria pele. Há uma certa tristeza naquele personagem, e me identifico muito com ela nesse sentido. Acho que de tempos em tempos me sinto esquisito, desconfortável. Isso se torna mais forte em certas fases da vida. Do início da adolescência aos meus 20 e poucos anos foi um período muito complicado e difícil porque não me identificava com nada nem ninguém. É uma sensação que não abandona você nunca mais. Fica lá em algum lugar por mais que você esteja feliz e realizado. Toda vez que completo uma idade redonda, 30, 40, 50 anos, também enfrento esse desconforto por me sentir vulnerável, em transição.

PERGUNTA - Para fazer o filme, você já declarou ter se inspirado em desenhos que Arthur Rackman fez para a história de Carroll. O que há de especial neles?
BURTON - Para começar, hoje eu vivo na casa que era o antigo estúdio de Rackman. É um carma muito bizarro! Ele fez ilustrações de Alice e do Cavaleiro Sem-Cabeça, e hoje moro na casa dele! É incrível! Conheci seu trabalho ainda pequeno, quando vi algumas ilustrações que acompanhavam um conto de Edgar Allan Poe e achei que eram imagens de grande impacto. Por isso sabia de suas ilustrações para um livro de Carroll e as usei como referência.

PERGUNTA - Seu primeiro emprego foi na Disney. Como foi trabalhar novamente lá?
BURTON - Tenho uma relação engraçada com a Disney. Eles já me convidaram para projetos e depois me mostraram o caminho da porta de saída umas cinco vezes (risos). É uma relação de amor e ódio. Eles me adoram e chamam de volta, depois ficam com raiva de mim e me chutam pra fora. Eu tenho certeza de que isso vai continuar. No caso de Alice, eu disse que queria fazer esse material, sem ser muito sombrio ou fazer nada muito maluco. O material é esquisito o suficiente! É tão subversivo que, se fosse feito hoje em dia, provavelmente seria banido!

PERGUNTA - E é literatura infantil!
BURTON - Pois é! Se fosse produzido nos dias de hoje, jamais seria chamado de literatura infantil. Seria, provavelmente, proibido para crianças. E talvez para adultos também!

PERGUNTA - Você já foi visto como um cineasta underground, mas agora está fazendo um filme para a Disney. Qual é a diferença?
BURTON - Eu converso com muita gente que faz filme independente e percebo que os problemas são sempre os mesmos: você precisa da grana de alguém, seja de um estúdio ou de algum ricaço maluco, o que pode ser ainda mais complicado. A natureza do cinema é essa. Eu entendo essa natureza e aprendi a aceitá-la. Hoje consigo fazer filmes grandes ou de orçamento pequeno.

PERGUNTA - Esse é o oitavo filme que você faz com Johnny Depp. Que tipo de alquimia existe entre vocês?
BURTON - Nós nunca pensamos nisso, e talvez seja essa a mágica. Nós vivemos o presente, não pensamos no que já fizemos nem no que vamos fazer no futuro. Além disso, temos um gosto muito parecido, e isso ficou muito claro pra mim em “Edward Mãos de Tesoura”. Temos um atalho na comunicação que torna tudo mais fácil e divertido.

PERGUNTA - Como foi fazer um filme em 3D? Este é o futuro do cinema?
BURTON - Eu não sei se teria feito esse filme se não fosse 3D. A proposta me pareceu uma mistura de mídias interessante. E isso me deixou muito animado. O 3D é mais uma ferramenta. Algo que tem potencial de adicionar mais uma camada extra de sensações ao cinema. Existe a música, a cor, o movimento... e o 3D. Mas essa tecnologia não vai ser salvadora de nada nem a razão de ser do cinema. Pode acreditar que nos próximos meses será lançada uma porção de filmes 3D bem porcarias porque muita gente vai achar que basta ser 3D para ser bom. É a nova onda.

PERGUNTA - Qual será seu próximo projeto?
BURTON - Vou refilmar “Frankenweenie”, o segundo filme da minha carreira, em 3D.